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Estrutura Social em Rede: Uma análise das relações sociais em Tempos Líquidos

Por: Ana Flávia Costa Eccard e Salesiano Durigon

Resumo
O atual artigo tem como objetivo geral a investigação sobre as relações sociais que se estabelecem nas redes sociais, compreende-se que com o advento das tecnologias globais as relações foram. Ainda que haja uma clara diferença entre informação e conhecimento, o fluxo de informações nas redes sociais leva embates políticos que norteiam as tomadas de decisões até em termos eleitorais. Diante deste cenário, preocupa-se em investigar como objetivo especifico a formatação dessas relações a partir do aporte teórico de Bauman. A metodologia utilizada foi a exploratória a partir da revisão de bibliografia atualizada tanto em bancos e repositórios.

Palavras-chave: Estrutura socia, Relações sociais, Tempos líquidos, Bauman, Tecnologia

Abstract/Resumen/Résumé
The current article has as its general objective the investigation of the social relationships that are established in social networks, it is understood that with the advent of global technologies, relationships have been modified and such changes can foster other consequences for the citizen. Even though there is a clear difference between information and knowledge, the flow of information on social networks leads to political clashes that guide decision-making even in electoral terms. Given this scenario, it is concerned with investigating as a specific objective the formatting of these relationships from the theoretical contribution.

Keywords/Palabras-claves/Mots-clés: Social structure, Social relations, Liquid times,
Bauman, Technology

INTRODUÇÃO:
Em se tratando de democracia e participação dos cidadãos nestes tempos contemporâneos, faz-se necessário um destaque dos indivíduos e da estrutura social em rede em que todos estão imersos na era da informação, fomentando-se as inovações tecnológicas para tornarem ainda mais complexa a estrutura social.

O cenário contemporâneo avançou não só nas tecnologias, mas em uma transformação nas relações humanas. Nesse sentido a temporalidade e a concepção de espacialidade foram transformadas, a comunicação se tornou facilitada pelos recursos tecnológicos, os espaços foram atravessados pelos fluxos de informação, o que
possibilitou um enfraquecimento das fronteiras globais, uma ressignificação do sentido de fronteira. Com um mundo em que as tecnologias da informação passaram a moldar a base social de maneira acelerada, os fatores geográficos que fixaram as fronteiras não mais são relevantes, nesse sentido Bauman (1999, p. 19):

Fazendo uma retrospectiva histórica, podemos nos perguntar em que medida os fatores geográficos, as fronteiras naturais e artificiais dos territórios, as distintas identidades das populações e kulturkreise (círculos culturais), assim
como a distinção entre “dentro” e “fora” – tudo tradicionalmente objeto da ciência geográfica – foram no essencial meros derivados conceituais, sedimentos/artifícios materiais de “limites de velocidade” ou, de forma mais
geral, das restrições de tempo e custo impostas à liberdade em movimento.

Fatores geográficos não mais determinam os limites de uma comunidade, estes passaram a ser ditados por processo de interdependência global, para Castells (1999, p.39): “Economias por todo o mundo passam a manter interdependência global, apresentando uma nova forma de relação entre a economia, o Estado e a sociedade em
um sistema de geometria variável.” Esta interdependência passou a ser viável, e cada vez mais presente no dia a dia da sociedade a inserção na Era Digital, tanto para o “bem” como para o “mal”, Castells (1999, p. 40):

Simultaneamente, as atividades criminosas e organizações ao estilo da máfia de todo o mundo também se tornaram globais e informacionais, propiciando os meios para o encorajamento de hiperatividade mental e desejo do proibido, juntamente com todo e qualquer forma de negócio ilícito procurado por nossas sociedades, de armas sofisticadas à carne humana. Além disso, um novo sistema de comunicação que fala cada vez mais uma língua universal digital tanto está promovendo a interação global da produção e distribuição de palavras, sons e imagens, de nossa cultura como personalizando-os ao gosto das identidades e humores dos indivíduos. As redes interativas de computadores estão crescendo exponencialmente, criando formas e canais de comunicação, moldando a vida e, ao mesmo tempo, sendo moldadas por ela.

Estas transformações, até pouco tempo inéditas e impossíveis, ocorrem sem a presença física dos indivíduos. Embora a história moderna tenha sido marcada pelosmeios de transportes em sua expansão e inovações, a grande surpresa foi exatamente o transporte da informação, o qual ocorre independente do seu criador. Neste sentido,
Bauman (1999, pp. 21-22):

Dentre todos os fatores técnicos da mobilidade, um papel particularmente importante foi desempenhado pelo transporte da informação – o tipo de comunicação que não envolve o movimento de corpos físicos ou só o faz
secundária e marginalmente. Desenvolveram-se de forma consistente meios técnicos que também permitiram à informação viajar independentemente dos seus portadores físicos – e independentemente também dos objetos sobre os informava: meios que libertaram os “significantes” do controle dos “significados”. A separação dos movimentos da informação em relação aos movimentos de seus portadores e objetos permitiu por sua vez a diferenciação de suas velocidades; o movimento da informação ganhava velocidade num ritmo muito mais rápido que a viagem dos corpos ou a mudança da situação sobre a qual se informava. Afinal, o aparecimento da rede mundial decomputadores pôs fim – no que diz respeito à informação – à própria noção de “viagem” (e de “distância” a ser percorrida), tornando a informação instantaneamente disponível em todo o planeta, tanto na teoria como na prática.

Esta virtualização das identidades em todas as esferas da atividade humana é resultado do grau de complexidade experienciado pela própria sociedade e com muito mais velocidade. Castells (1999, p. 43): “Na verdade, o dilema do determinismo tecnológico é, provavelmente, um problema infundado, dado que a tecnologia é a sociedade, e a sociedade não pode ser entendida ou representada sem suas ferramentas tecnológicas.”.

DESENVOLVIMENTO

Em sendo a tecnologia algo indissociável à sociedade atual, nos cabe uma análise de como esta se dá nos seus amplos e diversificados aspectos, inclusive com o desaparecimento ou diminuição das tradicionais áreas/espaços públicos para encontros formais e tomadas de decisões coletivas. Percebe-se o desenvolvimento de uma pirâmide
social, em que poucos, se beneficiam da informatização. Bauman (1999, p. 29):

As elites escolheram o isolamento e pagam por ele prodigamente e de boa vontade. O resto da população se vê afastado e forçado a pagar o pesado preço cultural, psicológico e político do seu novo isolamento. Aqueles incapazes de fazer de sua vida separada uma questão de opção e de pagar os custos de sua segurança estão na ponto receptora do equivalente contemporâneo dos guetos do início dos tempos modernos; são pura e simplesmente postos para “fora da cerca” sem que se pergunte a sua opinião, têm acesso barrado aos “comuns” de ontem, são presos, desviados e levam um choque curto e grosso quando perambulam às tontas fora dos seus limites, sem notar os sinais indicadores de “propriedade privada” ou sem perceber o significado de indicações não verbalizadas mas nem por isso menos decididas de “não ultrapasse”.

Ou seja, uma situação em que os próprios indivíduos (realidade micro) são desprezados e tem sua influência sobre seu meio social usurpada. O que não é diferente quando analisamos os espaços de organização social, desde os sistemas políticos, movimentos sociais e demais maneiras de organizações sociais coletivas. Neste sentido,
Castells (1999, p. 41):

Os sistemas políticos estão mergulhados em uma crise estrutural de legitimidade, periodicamente arrasados por escândalos, com dependência total de cobertura da mídia e de liderança personalizada e cada vez mais isolados dos cidadãos. Os movimentos sociais tendem a ser fragmentados, locais, com objetivo único e efêmeros, encolhidos em seus mundos interiores ou brilhando por apenas um instante em um símbolo da mídia. Nesse mundo de mudanças
confusas e incontroladas, as pessoas tendem a reagrupar-se em torno de identidades primárias: religiosas, étnicas, territoriais, nacionais.

Destaque importante, quando o indivíduo é relegado da participação e tem sua identidade local violentada, percebe-se a aderência por parte do tecido social, as chamadas “identidades primárias”, estas extemporâneas, mas que aglutinam indivíduos carentes de identidade.

Prova disto se vê no Brasil e no mundo a proliferação de seitas, religiões, grupos fundamentalistas, etc. Ou seja, Castells (1999, p. 41) aponta que “Segue-se uma divisão fundamental entre o instrumentalismo universal abstrato e as identidades particularizadas historicamente enraizadas. Nossas sociedades estão cada vez mais estruturadas em uma oposição bipolar entre a Rede e o Ser.”.

Uma vez instaurado um espaço esquizofrênico e bipolar de convívio neste mundo informatizado, o Ser coloca-se em exposição constante e tem suas opiniões direcionadas, dependendo de seu grau de conhecimentos, sua classe social, religião, localização geográfica, dentre outras características que liga ou desliga o indivíduo ou grupo do convívio global. Castells (1999, p. 61):

Parece haver uma lógica de excluir os agentes da exclusão, de redefinição dos critérios de valor e significado em um mundo em que há pouco espaço para os não-iniciados em computadores, para os grupos que consomem menos e para os territórios não atualizados com a comunicação. Quando a Rede desliga o Ser, o Ser, individual ou coletivo, constrói seu significado sem a referência instrumental global: o processo de desconexão torna-se recíproco após a recusa, pelos excluídos, da lógica unilateral de dominação estrutural e exclusão social.

Nesta sociedade informacional, em que a Rede e o Ser estão postos, cabe destacar a desordem vivenciada como consequência a partir das perspectivas institucionais de cada espaço, conforme nos mostra Bauman (1999, p. 66):

Em poucas palavras: ninguém parece estar no controle agora, pior ainda – não está claro o que seria, nas circunstâncias atuais, “ter o controle”. Como antes, todas as iniciativas e ações de ordenação são locais e orientadas para questões específicas; mas não há mais uma localidade com arrogância suficiente para falar em nome da humanidade como um todo ou para ser ouvida e obedecida pela humanidade ao se pronunciar. Nem há uma única questão que possa captar e teleguiar a totalidade dos assuntos mundiais e impor a concordância global.

Diante de tais dificuldades, como colocadas a partir desta globalização que transcende os Estados soberanos, cabe compreender o que Castells (1999, p. 566) conceitua como rede e sua caracterização da sociedade na era da informação:

Rede é um conjunto de nós interconectados. Nó é o ponto no qual uma curva se entrecorta. Concretamente, o que um nó é depende do tipo de redes concretas de que falamos. São mercados de bolsas de valores e suas centrais
de serviços auxiliares avançados na rede dos fluxos financeiros globais. São conselhos nacionais de ministros e comissários europeus da rede política que governa a União Europeia. São campos de coca e de papoula, laboratórios clandestinos, pistas de aterrissagem secretas, gangues de rua e instituições financeiras para lavagem de dinheiro na rede de tráficos de drogas que invade as economias, sociedades e Estados no mundo inteiro. São sistemas de
televisão, estúdios de entretenimento, meios de computação gráfica, equipes de cobertura jornalística e equipamentos móveis gerando, transmitindo e recebendo sinais na rede global da nova mídia no âmago da expressão cultural e da opinião pública, na era da informação.

Uma vez estabelecidas as várias facetas do que vem a ser estes fluxos em rede, são notórios os desafios e a selvageria a serem compreendidos no momento histórico por nós vivenciado. Com ênfase, Castells (1999, p. 568) destaca que todo o capital é equalizado na democracia de geração de lucros, transformados em commodities: “Nesse cassino global eletrônico, capitais específicos elevam-se ou diminuem drasticamente, definindo o destino de empresas, poupança familiares, moedas nacionais e economias regionais.”.

O reflexo desta financeirização e autodependência das redes regionais e locais ao mundo globalização tem uma interferência direta no mundo do trabalho. Mesmo o capital sendo global e o trabalho quase sempre sendo local, o mundo do trabalho passa por uma profunda transformação. Castells (1999, p. 39):

A mão-de-obra está desagregada em seu desempenho, fragmentada em sua organização, diversificada em sua existência, dividida em sua ação coletiva. As redes convergem para uma meta-rede de capital que integra os interesses capitalistas em âmbito global e por setores e esferas de atividades: não sem conflito, mas sob a mesma lógica abrangente. Os trabalhadores perdem sua identidade coletiva, tornam-se cada vez mais individualizados quanto a suas capacidades, condições de trabalho, interesses e projetos. Distinguir quem são os proprietários, os produtores, os administrados e os empregados está ficando cada vez mais difícil em um sistema produtivo de geometria variável, trabalho em equipe, atuação em redes, terceirização e subcontratação.

Embora se perceba que o processo do trabalho é cada vez mais individual, por outro lado é notória a desagregação e segmentação dos trabalhadores. Nesta toada, os processos de transformação social transcendem as relações sociais e as técnicas de produção, interferem na cultura e no poder de forma decisiva, segundo Castells (1999, p. 572), “Como a informação e a comunicação circulam basicamente pelo sistema de mídia diversificado, porém abrangente, a prática da política é crescente no espaço da mídia. A liderança é personalizada, e formação de imagem é geração de poder.” Como se vê, a política acaba por ser modelada na linguagem da mídia.

Cabe ressaltar que informação é, segundo McGarry (1999), um elemento fundamental do conhecimento que transita entre um emissor e um ou mais receptores. Grosso modo, a informação consiste em uma mensagem trocada por duas ou mais partes, dotada de significado, por um mediador. Quando falamos em informação digital, esse mediador é um meio tecnológico. A informação, ademais, tem um propósito ao ser emitida, seja em que esfera da vida for. Isso porque a informação permeia desde as relações pessoais, até a vida política, como vimos acima.

A sociedade contemporânea tem se valido muito dos avanços tecnológicos em todas as áreas, seja das tecnologias que facilitam o cotidiano, como robôs, máquinas mais potentes, seja com a tecnologia digital. Nesse cenário, a informação adquire um valor fundamental para a vida social uma vez que atua como uma potente via de ampliação de uma ideia, de um assunto ou de um acontecimento (KOHN & MORAES, 2007).

Kohn e Moraes (2007) dirão, a respeito da Sociedade da Informação, que se trata de um fenômeno social que perpassa a vida em suas diferentes esferas e remodela o modo que as pessoas agem e interagem na medida em que impõem novas maneiras de se comunicar. Para que a informação circule é necessário que haja um meio de difusão. Os autores mencionam que a propagação da informação precisa de um meio tecnológico e que, por essa razão, a sociedade tem cada vez mais passado por processos de transformação e aperfeiçoamento tecnológicos.

Esse fenômeno revela uma sociedade em processo de desenvolvimento tecnológico acelerado e cada vez mais integrado à vida. Castells (1999) dirá, sobre este fenômeno, que se podem perceber diferenças de inserção tecnológica em diferentes sociedades. Para o autor, ter domínio sobre a tecnologia demonstra o grau de habilidade
que uma sociedade adquiriu e o quanto esse processo impacta em sua própria trajetória. A depender da sociedade esse pode ser um processo mais ou menos demorado.

A evolução da propagação da informação pode ser situada em um período histórico que coaduna outras importantes mudanças na vida das pessoas (KOHN & MORAES, 2007). A transmissão das informações e dos conhecimentos elaborados a partir delas foi durante longa data na história da humanidade feita através da oralidade, mesmo com escrita desenvolvida, os meios eram incipientes. Desse modo, uma mudança significativa ocorreu no século XV com o desenvolvimento da prensa de Gutenberg, como podemos observar na passagem:

A produção e a difusão da informação se deram, primeiramente, pela tradição da cultura oral, armazenada nos manuscritos e repassada por leituras coletivas em comunidades ou grupos restritos. Com o desenvolvimento dos transportes e do comércio, no século XV, essas informações deixaram um pouco de sua restrição para chegar a outras comunidades mais distantes. Foi nessa época, também, que houve uma busca cada vez maior pelo conhecimento e, no século XVII, foram criadas as primeiras universidades. Um dos principais marcos da propagação das informações, especialmente para o ramo das comunicações, foi o desenvolvimento da prensa gráfica, a partir de Gutenberg por volta de 145. (KOHN & MORAES, 2007, p. 3)

Os séculos subsequentes viram a imprensa se desenvolver e se transformar em um veículo de difusão de informação em massa. Kohn e Moraes (2007) chamam a atenção para o fato de que além de alguns desenvolvimentos técnicos, há também um aprimoramento da busca de informações criando uma nova profissão, o jornalismo. Com isso a informação passa a um novo patamar de internacionalização, podendo ser veiculada com maior velocidade atingindo uma dimensão maior de lugares.

Nessa toada, os autores supramencionados afirmam que tanto a transmissão quanto a influência exercida pelas informações passadas adquirem nova importância. Ademais, em meados do século XIX, com o surgimento do telégrafo, a difusão da informação dá um salto por não mais se restringir a meios físicos de circulação. Já no começo do século XX o rádio deixa de ser um mecanismo de comunicação de guerra e passa a ser o mais importante meio difusor de informação do período. A cobertura de longo alcance permite atingir mais pessoas e vai se remodelando para atingir novos interesses (KOHN & MORAES, 2007).

Além de informações, o rádio serve para a veiculação de noticiários diversos, publicidade e também para programação voltada para o entretenimento dos ouvintes. O meio de propagação da informação alcança novos patamares nas décadas seguintes com a invenção da televisão. A princípio, seu desenvolvimento ocorreu em países europeus e nos Estados Unidos, posteriormente se espalhando pelo mundo.

Entretanto sua capacidade de expansão foi logo reconhecida como um importante meio de difusão em larga escala “revolucionando os sistemas de informação com a imagem em movimento, presente antes em salas escuras de cinema, agora refletindo em locais privados” (KOHN & MORAES, 2007, p. 15).

Fato curioso é que o computador já estava em desenvolvimento no mesmo período, porém atendendo a outros fins. Dessa maneira, o computador para uso pessoal só se fará presente na vida cotidiana das pessoas tempos depois. Na década de 1980 o primeiro computador pessoal é lançado, muito diferente dos primeiros computadores desenvolvidos que eram muito grandes e ocupavam muito espaço.

Esse foi um importante marco tecnológico por diminuir o tamanho dos aparelhos, aumentar a funcionalidade e baratear custos. Dessa maneira, foi capaz de ir aos poucos se popularizando como uma ferramenta multiuso e ampliando o alcance da tecnologia e da informação (KOHN & MORAES, 2007, p. 15).

Nesse sentido, podemos traçar uma linha de desenvolvimento das tecnologias de difusão da informação, sendo possível também afirmar que esse processo foi lento e gradual e que a partir do século XX teve um desenvolvimento mais acelerado à medida que as tecnologias avançaram.

Kohn e Moraes (2007) afirmam que esse processo evidenciou que a informação foi aos poucos perdendo seu caráter local para configurar um fenômeno global. A tecnologia passou a mitigar distâncias, ampliar acessos e, teoricamente, democratizar a informação, uma vez que:

Reconfigurou o tempo e o espaço, acelerando as práticas e encurtando as distâncias. Tornou possível um novo tipo de sociabilidade, na qual a presença física já não é essencial para que haja uma relação, sendo possível interagir
com quem quiser, a hora que quiser e ser participativo dentro da sociedade por meio de um espaço virtual. (KOHN & MORAES, 2007, pp. 15-16)

Assim, a humanidade viu mais um processo tecnológico se aperfeiçoar e se difundir em escala global com o desenvolvimento da Internet, inaugurando a Era Digital.

A sociabilidade está diretamente relacionada com o uso da Internet, pois através dela se consegue reunir diferentes esferas da vida. Para Kohn e Moraes (2007) as transformações da Era Digital visam melhorar a vida de um modo geral da sociedade e dos indivíduos de um modo particular.

Isso porque as novas tecnologias digitais facilitam a transmissão das informações, bem como da maneira como essas passam a ser armazenadas. Essa rede de dados afeta os âmbitos econômico, político e social da vida comum, pois conectam em larga escala o mundo, remodelando o modo como as pessoas se relacionam, uma vez que essas
tecnologias:

passam a revolucionar a leitura e a comunicação em rede, possibilitando arquivar, copiar, desmembrar, recompor, deslocar e construir textos, exibi-los e ter acesso a todo tipo de informação, de qualquer variedade, a todo instante.
(KOHN & MORAES, 2007, p. 16)

Portanto, há um crescente movimento de aceleração do fluxo informacional, além de cada vez mais especializado para atender diferentes nichos com diferentes interesses. O computador passa a ser um aparelho dentre outros (como os smartphones) para a difusão da informação por meio da internet.

Mais a mais as tecnologias se aperfeiçoam tornando as conexões mais ágeis, mais competitivas e também com maior alcance, além de cada vez mais integradas à vida a ponto de serem imprescindíveis, pois “é possível ter acesso a uma vasta rede de informações em tempo real e também trocar e cruzar dados a qualquer momento” (KOHN
& MORAES, 2007, p. 29).

Outra consequência dessas transformações tecnológicas pode ser observada na esfera do trabalho. Os computadores, ao mesmo tempo em que substituíram funções e reduziram a necessidade de efetivamente empregar pessoas, por outro lado criaram novas áreas especializadas. É o caso da ampliação de profissões relacionadas à informática, como programação, administração de rede e webdesign (KOHN & MORAES, 2007).

Pierre Lévy (2010) vai indicar que essas novas áreas de atuação inauguradas pelo desenvolvimento da informática alargam o campo das funcionalidades e separam as técnicas em categorias que vêm mais a mais sendo aperfeiçoadas. A Era Digital carece, a essa altura, de profissionais capacitados para tanto produzir dados quanto para receber, armazenar e transmitir.

A facilidade do trânsito de informações suscita, além da velocidade que permite a emissão e a recepção instantâneas, a possibilidade de que qualquer pessoa se torne emissor da informação (LÉVY, 2010). Em relação a autoridade do profissional jornalista, se antes a veiculação de informações contava com um nicho especializado, hoje se discute a validade de diploma para o exercício da profissão.

Esse novo cenário explicita que a Internet promoveu a quebra de barreiras da veiculação de informações. Essa discussão envolve muitos contornos éticos sobre os quais falaremos ao longo deste trabalho, mas o fato de se propiciar contatos com menos intermediários faz da rede digital um importante componente da vida contemporânea. Ao mesmo tempo em que a informação é recebida, ela pode ser interpretada de diversas maneiras, repassada, discutida, questionada, praticamente na mesma velocidade com que foi obtida (KOHN & MORAES, 2007).

Em se tratando de contemporaneidade há hoje uma formatação completamente diversa dos outros momentos vividos na sociedade, consequência das inovações tecnológicas e da conexão em rede.

Resta claro que as alterações da atualidade forjam as alterações sociais de forma direta, a organização social também sofre modificações. Neste sentido, alterações na ordem social são comuns, o ineditismo da atualidade está na forma acelerada das transformações, o tempo para algo se tornar obsoleto e ter que desenvolver atualização
está encurtado.

Essa era da intensidade de modificações é compreendida como pós-modernidade, não há ainda uma clara conceituação desse período pós-moderno, contudo, como aporte teórico dessa temática tem Zygmunt Bauman que concentra sua investigação na caracterização da sociedade que denomina de modernidade líquida.

Importa destacar que esse pensador não constrói uma ruptura com a modernidade, o que é comum em se tratando da história da filosofia. Ele acrescenta em suas observações uma continuidade da modernidade a partir da ideia de intensidade das relações, uma quebra com a temporalidade anterior.

Portanto, é possível falar de uma continuidade da modernidade, o autor em epígrafe apresenta dois períodos, que seriam a modernidade sólida e a modernidade líquida, esse segundo é o que estamos vivenciando atualmente no qual há uma aceleração no interior das relações sociais.

Destarte, o ponto de interesse aqui é analisar o desenvolvimento das relações sociais frente às inovações tecnológicas que permitiram alguma mudança de paradigmas, uma vez que as relações agora se desenvolvem a partir de outra dinâmica social. Anteriormente, era possível falar que a sociedade se encontrava em um tempo-espaço sólido, calcado em um aspecto de segurança, pois há indícios de uma durabilidade do estado de coisas, as decisões eram tomadas pelo prisma da liberdade, mas havia algo de fixo, pois uma estrutura estava colocada e estável.

Por ilustração desses tempos, temos as relações as quais as instituições e a indivíduos se firmavam em certa estabilidade, observada nas relações de trabalho, nas relações de consumo, na produção de bens de serviço, não necessidade de troca de produtos duráveis, entre outras coisas.

Esta fase da modernidade denominada sólida é um retrato das estruturas do Iluminismo, quando os Estados Nações estavam em formação e por isso uma estrutura de solidez, estruturas fixas necessárias para geração de segurança da sociedade, um estatuto psíquico guiado pela razão, um ideário de evolução e estabilização (LEITE, 2017).

Contudo, há um desvio do compromisso inicial da era da modernidade sólida a qual não se consegue estabilizar a sociedade pela perspectiva racional. Ocorre ainda que com advento das novas tecnologias e a desenvoltura da globalização, espalhada, sem limitações fronteiriças, surge então um emaranhado de novos paradigmas que irão refletir nos valores da época vivida e na experiência dos indivíduos.

Um dos autores que analisa a segunda fase da modernidade é Castells (2002), em sua pesquisa verifica os acontecimentos históricos que alteram e alteraram a dinâmica social, elenca as temáticas:

Uma revolução tecnológica centrada em torno das tecnologias de informação, telecomunicação e transporte que surgiu na década de setenta; a interdependência das economias à escala global introduzindo uma nova forma de relação entre economia, Estado e sociedade; a desagregação do bloco soviético e as mudanças de políticas econômicas nas nações de regimes socialistas, pondo fim à guerra fria e a reestruturação profunda do capitalismo (LOBÃO, 2020)

A citação supra contribui com o entendimento sobre quais eram as modificações sofridas que são a origem das novas relações que se dão na segunda fase da modernidade, nesse sentido coaduna com o entendimento a tese de Castells sobre as novas tecnologias estarem conectadas às redes globais com intento instrumentalistas.

Significa dizer que as possibilidades de comunicação pela via dos computadores disseminam uma grande variedade de comunidades na ordem digital, este é o ponto de destaque quando se pensa as modificações desta fase da modernidade.

O fenômeno que possibilitou as mudanças das relações e o estatuto psíquico da comunidade foi a Era Digital, essas mudanças são efetivadas em determinados comportamentos, tais como: outro tipo de consumo que designa uma escolha própria e individual, relações pessoais fundadas na virtualidade, a rotina influenciada por tecnologias em larga e acelerada aderência, com a impressão deixada de indispensabilidade à vida humana.

Nessa toada, ensina Longo (2014, pág.56) que a pós-modernidade tem predomínio do instantâneo, da perda de fronteiras, gerando a ideia de que o mundo está cada vez menor através do avanço da tecnologia, ou seja, um mundo virtual, imagem, som e texto em uma velocidade instantânea.

Em que pese a Modernidade Líquida é uma construção do Baumam que levou certo tempo discursivo para se edificar, nesse sentido no início dos seus escritos ele denominava como pós-modernidade, a chamada metáfora da liquidez é uma condição desta era que é desenvolvida em toda sua obra.

Alguns pensadores correlacionam a liquidez com pensamento marxista de uma expressão que diz que “tudo que é sólido se desmancha no ar”, nesse sentido a rapidez da duração da modernidade líquida se confronta com a solidez da modernidade sólida, apresentando o insucesso da segunda superada pela primeira, o desmanchar no ar apresenta a rápida quase instantânea desconstrução das bases da antiga modernidade e suas instituições em um processo acelerado e de modificação estrutural.

A conceituação desse instituto se faz a partir da descrição do líquido, significa dizer, que o estado líquido preenche os espaços, existe uma facilitação em sua mobilidade e fluxo, há uma fluidez inerente a si. Resta claro que há uma diferenciação com estado sólido que não possui movimento igual ao líquido, assim o sólido possui espaços definidos e fixados.

As modificações assistidas a partir da incorporação das novas tecnologias e da conexão em rede, que foi também um avanço da ciência, transformaram não só as relações como o modo de conceber o mundo e as tomadas de atitudes, portanto, há de se falar em uma nova configuração entre os indivíduos baseada na aproximação gerada pela utilização da tecnologia no dia a dia.

As novas formas de se relacionar originadas dos avanços tecnológicos com a Era Digital possuem uma temporalidade diferenciada, o encurtamento das distâncias e aproximação do contato permitiram uma nova forma de pensar, sentir e exigir das relações respostas rápidas e imediatas.

A nova temporalidade das relações do mundo digital não acelera só o espaço e tempo, ela insere outra forma de compreensão de mundo imediatista, cabe salientar que tais novidades não estão apenas na ordem das interações das redes sociais, se espalham para as questões profissionais, de consumo, de participação coletiva nas mídias, na
circulação das informações em fluxo.

Importa destacar que a facilidade de mobilização permite uma sensação de fugacidade, efemeridade que sedimenta um pensamento da provisoriedade, o estar e não ser. Assim há uma impressão que não há estabilidade em nenhuma localidade e que se pode habitar todos os lugares do globo, o que não é uma realidade uma vez que o fluxo de pessoas continua sendo um problema em se tratando dos refugiados e migrantes econômicos, no que diz respeito a viagens e facilitações pode-se compreender essa temática como algo possível.

Na modernidade sólida não era possível imaginar uma migração rápida para os outros países, a circulação era limitada, não havia os avanços tecnológicos dos transportes, a racionalidade utilizada nesta modernidade se referia a pontos de estabilidade e segurança. Para Bezerra (2019, p.78) a racionalidade utilizada em tempos de mundo global líquido é de não se comprometer, o ideário de efemeridade é estabilizado nas relações. Nesse ponto, o correto, no que tange as orientações, são contratos curtos, atenção às imprevisibilidades e mudanças drásticas e em pouco tempo. Segundo Lobão (2020), nada mais é feito para durar, desde os bens de consumo às relações amorosas.

A liquidez proposta por Bauman retrata uma instabilidade própria da modernidade, que está representada nos modelos de mobilidade, trânsito e volatilidade. Bauman (2001, p. 7) diz:

A passagem da fase “sólida” da modernidade para a “líquida” – ou seja, para uma condição em que as organizações sociais (estruturas que limitam as escolhas individuais, instituições que asseguram a repetição de rotinas, padrões de comportamento aceitável) não podem mais manter sua forma por muito tempo (nem se espera que o façam), pois se decompõem e se dissolvem mais rápido que o tempo que leva para moldá-las e, uma vez reorganizadas, para que se estabeleçam.

Pedro Doria (2021) em sua coluna do Jornal O Globo traz reflexões sobre O incrível futuro da internet. O autor apresenta o caso da Epic e da Apple que configura o primeiro processo antitruste contra a Big Techs nos tribunais dos EUA, sua citação apresenta a preocupação de se pensar o futuro pelas controvérsias que são oriundas da utilização em massa das tecnologias.

É possível observar um esforço do Congresso americano em buscar regulamentação para tentar controlar o mercado das grandes empresas de tecnologia. Há um monopólio das chamadas big techs, inclusive o comitê de Justiça da Câmara dos Deputados dos EUA apresentou, que foi aprovado com 24 votos, um relatório que descreve as práticas de compra e extinção das empresas de menor porte, como ilustração desse monopólio temos a Apple, Amazon, Facebook entre outras. Desta forma, há um posicionamento político dos EUA de tentar limitar a prática do truste, e por consequência, reduzir os abusos de mercado. Nesse sentido, assevera Jerry Nadler (2021, p.6), presidente do Comitê Judiciário da Câmara:

É o início de uma oportunidade para os Estados Unidos reafirmarem seu papel de liderança nesta questão internacionalmente (…) com este pacote de legislação histórica, temos a oportunidade de assumir o controle de nosso próprio destino — ser um líder global no desenvolvimento de regras para a economia digital.

Observa-se que as buscas sobre regulamentação nessa discussão dos avanços das tecnologias, o Brasil só aparece como expectador. Importa considerar que o país é consumidor das tecnologias, e em se tratando dos EUA, eles não são só consumidores, como produzem e hoje, possuem empresas gigantes desse ramo.

O jornalista do O Globo apresenta o ciberespaço como um lugar que merece nossa atenção, propõe pensar pelo conceito de metaverso e afirma que:

Num ambiente assim, as possibilidades são inúmeras. Não se trata, afinal, apenas da visão 3D. Luvas e outros utensílios acoplados ao corpo podem oferecer tato — e, assim, quando alguém aperta sua mão, o cumprimento é sentido com a pressão dada na origem, até com o calor. Pode ser tão realista quanto quisermos, quanto também permitir que uma perna de pau como cá este colunista se saia numa partida tão brilhante como Zico. A pornografia ganhará outra dimensão, também o cinema e o teatro poderão se fundir e estaremos ali ao lado de Hamlet quando enfim ele cair morto. O resto é silêncio. (DORIA, 2021).

O futuro da internet traz muitas questões, não só as possibilidades de experimentar a realidade aumentada, a inteligência artificial, os computadores e programas facilitando algumas questões da vida humana, mas como o controle dos dados, manipulação das informações que chegam.

CONCLUSÃO
O artigo em tela teve como tem como objetivo geral a investigação sobre as relações sociais que se estabelecem nas redes sociais, compreende-se que com o advento das tecnologias globais as relações foram modificadas e tais alterações podem fomentar outras consequências para o cidadão. Isso porque as novas tecnologias digitais facilitam
a transmissão das informações, bem como da maneira como essas passam a ser armazenadas. Essa rede de dados afeta os âmbitos econômico, político e social da vida comum, pois conectam em larga escala o mundo, remodelando o modo como as pessoas se relacionam, uma vez que essas tecnologias.

Portanto, há um crescente movimento de aceleração do fluxo informacional, além de cada vez mais especializado para atender diferentes nichos com diferentes interesses. O computador passa a ser um aparelho dentre outros (como os smartphones) para a difusão da informação por meio da internet.

Mais a mais as tecnologias se aperfeiçoam tornando as conexões mais ágeis, mais competitivas e também com maior alcance, além de cada vez mais integradas à vida a ponto de serem imprescindíveis.

Diante deste cenário, preocupou-se em investigar como objetivo específico a formatação dessas relações a partir do aporte teórico de Bauman, observou-se que na modernidade sólida não era possível imaginar uma migração rápida para os outros países, a circulação era limitada, não havia os avanços tecnológicos dos transportes, a racionalidade utilizada nesta modernidade se referia a pontos de estabilidade e segurança.

Assim a racionalidade utilizada em tempos de mundo global líquido é de não se comprometer, o ideário de efemeridade é estabilizado nas relações. Nesse ponto, o correto, no que tange as orientações, são contratos curtos, atenção às imprevisibilidades e mudanças drásticas e em pouco tempo. Segundo Lobão, como visto, nada mais é feito para durar, desde os bens de consumo às relações amorosas. A liquidez proposta por Bauman retrata uma instabilidade própria da modernidade, que está representada nos modelos de mobilidade, trânsito e volatilidade.

 


 

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